- Está chorando? Por que choras?
- Porque estou triste.
- Por que... Está triste?
- Porque você está pensando em morte.
- Por que a morte tem que ser triste?
- Porque nela se perde tudo o que é importante... E se perde para sempre.


Chovia. 

 Dizem que a chuva são as lágrimas de Deus. Talvez Deus estivesse mesmo chorando, talvez Deus tenha previsto o que aconteceria. 
 Ele também chorava. Suava frio, estava pálido. Seus cabelos cor de areia estavam bagunçados, e sua mão trêmula segurava a arma firmemente. 
 Seus olhos verdes contrastavam a cor cinza do quarto bagunçado. O ar denso o sufocava, apertava sua garganta. A loucura ziguezagueava, pairava e brincava com ele. 


Tudo perdera o sentido. 


 O menino de asas feridas o observava sentado à beira da cama. Encarava-o gentilmente. Seus olhos negros como a noite transmitiam paz. Paz que o rapaz não queria receber. 
 O rapaz dos olhos verdes chorava. As lágrimas escorriam pela face e caiam sobre a roupa amarrotada. Deslizava pelo rosto queimando-o. Cada lágrima representava uma face do seu próprio eu. 
 Mas mesmo chorando, a dor não passava. 
 O gato do rapaz o observava. Não sabia o que acontecia com o dono. Estava assustado. Seu pelo negro se ouriçava. Cumpria a tenebrosa profecia que o anjo trouxera. 
 O silêncio era rompido apenas pelo barulho da Avenida: carros, luzes, vidas... O rapaz dos olhos verdes não gostava do barulho. 

Hipocrisia. 

Era isso o que ele ouvia. 
 O menino das asas feridas se inclinou. 
 A lua entrava pela janela e clareava seu rosto sutilmente. 
 - Você sente falta dela? – o menino perguntou. - Você quer mesmo fazer isso? – Sua voz era fria, calma, serena... 

Inocente. 

O relógio badalou meia noite, mas para o rapaz o tempo parou quando ela se fora. 
 - Alice – o rapaz sussurrou. 
 A imagem dela vinha a sua mente. Tenebrosa e bela reminiscência do que, para o rapaz, um dia foi o único motivo de felicidade, de amor... de vida. 
 Cabelos castanhos repousavam sobre os ombros. A pele branca. A franja que caía sobre os olhos e escondia a cor do mar. 

Ela Sorria. 
Trazia paz consigo. 

- Por quê? – o rapaz se lastimou. O menino ainda o observava tristemente. 
“Porque nela se perde tudo o que é importante” – A voz dela sussurrou em seu ouvido. 
- Vamos? – o menino convidou. – Está na hora – sua voz vacilava. Não queria mais ver o rapaz sofrer tanto por ela. 
 A lua parou de brilhar, os ponteiros do relógio cessaram sua constante corrida e o menino sorria melancolicamente. 
 O rapaz carregou a arma. Tremia. Girou a roleta russa mesmo sabendo que dessa vez não poderia voltar atrás. 
 Apontou-a para a cabeça. 
 O menino das asas feridas se levantou, foi até o rapaz e o abraçou. 
 Uma última lágrima caiu de seus olhos verdes. 

“E se perde para sempre.” 

O rapaz disparou a arma. O sorriso dela foi varrido de sua mente, e o menino o levou. 
Um anjo cantava uma canção de ninar para um suicida que ia ao encontro a sua noiva. 
A cidade não se importava, continuava ocupada em sua própria hipocrisia. 

Chovia. Deus chorava.


Gabriel de Mello Santos   . 

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