mudar de rumo, esquecer o passado. Erguer a cabeça e seguir em frente. Juntando os cacos, eu pensava: Porque eles caem, porque meu coração se quebra, como pessoas machucam sentimentos? Passava um senhor, na caminha da vida, juntando seus caquinhos junto a terra. Ele tinha lama nos pés e algumas rugas. Não prestei atenção em suas expressões, mas sim em suas vestimentas. Eram trapos, rasgados em quase todas as partes e costurados em outras. Me perguntei como ficaram assim, enquanto eu, com meu vestido longo, estava intacto, exceto pela pequena barra que havia queimado metros atrás.
Continuei juntando meus pedaços e notei que ele levava uma bolsa, onde colocava seus pedaços, enquanto eu, segurava tudo em uma mão. Ele sorriu para mim, não um sorriso cordial, um sorriso gentil, quase paternal. Acho que fiz uma cara de interrogação tão visível, que ele começou a rir. Então não entendi mais nada. Ele foi chegando, me ajudando a juntar meus pedacinhos, ele era bom nisso. Perguntou se eu havia sofrido muito no passado. Afirmei.
Ele segurou minha mão, olhou nos meus olhos e naquele instante, tive a maior lição da minha caminhada até aqui enquanto dizia: Minha pequena, você não sabe quem eu sou, nem eu sei quem você é, mas sei o que se passa dentro de seu corpo, pois já tive os mesmos sofrimentos que você. Suas roupas são lindas, como sua bondade e esse negro, combina perfeitamente com sua pele, me diga anjinho, quanto da caminhada parou? Estás tão devagar, pensativa talvez? Como anda com a família, seus pais não te entendem e te julgam? Os amigos, antigos amigos, pararam de ligar e contar sobre suas vidas? Eu sei como é, ando só a muitos anos, mas e seu amor? Sinto que continua ai dentro... O meu se foi a longos anos, deixou-me para terminar sua caminhada. Ela tinha os seus olhos, mas só isso também. Era dela o meu amor, mas o amor dela não era meu. Esses cacos são dela, olhe, são rosa como a alma que ela tinha. Os meus são verde marinho. Ela não terminou de se recompor e por isso se foi, sem completar sua missão, me diga flor do jardim, qual é sua missão na Terra, qual é o seu motivo de existência?- enquanto mexia em meus cabelos, voltamos a caminhar.- Que petulância minha perguntar, você é jovem e ainda não sabe. Mas vou te dizer o que aprendi enquanto tropeçava em pedras: nunca deixe as pessoas passarem ao seu lado, nem a passarem a sua frente. Se estás aqui, é aqui que deve permanecer. Meu amor, passou a minha frente, encontrou seu amor lá e então, quebrada por ele, recuou e tornou-se minha. Ela caminhou para trás, isso a fez fraca e a matou. Minha linda, nunca volte atrás, se errar, aceite. Erros a tornam única e só assim, será quem você é. Olha essa estrada, ela nunca acaba, mas dependerá de você se continuará ou largará seus cacos nessa pequena sombra que estamos passando. Muitas vezes o caminho é quente, acaba e desgasta nossos corpos, mas devemos continuar... O que são essas marcas? Anda se machucando? Não faça isso pétala, você é linda por dentro e por fora, mas sua essência não te faz menor que seus pensamentos. Se controle, erga sua cabeça e agradeça sua vida, porque muitos gostariam de estar onde está, viva. Agora corra, corra para longe, o máximo que puder, encontre seu amor e só pare quando ele sorrir para você e dê seu coração a ele, mas não se esqueça. Amores machucam, porém não destroem, agora, vá, corra. Além da colina, depois dos ventos e da chuva. Derrube lágrimas se precisar, mas nunca abaixe a cabeça.
Segurei meus cacos, encontrando uma bolsa no meu caminho. Coloquei ela ao meu lado, segurei-a com força e corri. Corri até meus braços doerem, até minhas pernas pedirem um descanso, corri mais que isso. Corri até encontrar um garoto, um garoto que me sorriu e reconheci ele, o garoto que aparecera em meus sonhos, o menino que vivia ao meu lado toda a minha vida terrestre, minhas manchas sumiram e ele segurou a minha mão. Por um momento pensei que fosse explodir, então senti uma batida diferente, aquele não era o ritmo do meu coração, mas sim o dele dentro de mim.

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