Meu amado aperta minha mão e posso sentir, esta é a última vez! Com sua ofegante respiração, vem até mim os momentos passados nos quais, desses lábios, nunca ouvi a palavra amor.
   No mesmo sofrimento que agora nos consome, conheci Simão com o ombro rasgado por um tiro. Do mesmo modo que meu amado agora perde os sentidos, perdi eu naquele momento. Depois de recuperar-me, a pedido de meu pai, cuidei de sua ferida devido à tamanha gratidão por anos antes ter seu pai livrado o meu da forca.
   Aos meus cuidados, ele era receptivo, porém, em certos momentos, preferia ficar só para escrever à Teresa, a quem certamente amava. Nunca reneguei ajudar a correspondência entre os dois. Mesmo quando Simão estava impossibilitado, aos meus cuidados, fui ao convento de Viseu entregar a carta nas mãos da moça que tinha todo o seu coração. Como resposta, recebi de Teresa o recado que iniciaria toda a desgraça de nossas vidas. Fiquei aflita e não estava errada. O amanhecer trouxe a notícia do assassinato cometido por Simão. Ele, por sua honra, entregou-se às autoridades e, mesmo com as oportunidades, não quis livrar-se de sua culpa.
   Acompanhei-o até a prisão, onde dediquei-me a servi-lo como sua esposa. Fui também sua família, e aos olhos dele, sua irmã.
   A notícia de sua possível condenação a forca fez-me sair de mim e perder o juízo. A ideia de não tê-lo mais presente em meus dias, mesmo sombrios por não ter seu coração, era a causa de meu desespero.
   Por intermédio de uma carta, fiquei sabendo que meu pai fora assassinado e junto a Simão me desfiz em prantos.
   Pouco tempo depois, chegou-me a notícia de que meu amado foi condenado a dez anos de degredo na Ásia. A única ideia que passou por minha mente foi ser mais forte que Teresa e suportar o degredo, até mesmo a morte, junto com Simão, Necessitava daquilo.
   Podia imaginar nossa vida na Índia. Ele era minha única família, minha única razão e é, mesmo agora, meu único amor.
   A vontade de Teresa era que Simão aguardasse o cumprimento da pena na cadeia para que pudessem se reencontrar. Ele preferiu o degredo e então embarcamos rumo à Ásia. Escutei as âncoras levantarem e o partir do navio de nossa pátria. Ao anoitecer, longe avistamos Teresa acenando. Sem dúvida, pela última vez. Sua aparência era tão branca quanto o lenço que segurava, e o seu olhar denunciava a morte próxima. Mesmo assim, a morte não colocaria fim no amor dos dois.
   Esta mesma morte aproxima-se de meu amado que agora arde em febre. Ele pronuncia, pela última vez, as palavras da carta de despedida de Teresa e mencionava meu nome no lugar do dela.
   Neste mesmo momento, a vela que ilumina a face de meu amado se apaga. A morte o fez soltar agora a minha mão. Que ela leve também consigo um beijo a Simão. Levam seu corpo envolto em um lençol. Preparam para jogá-lo ao mar.
   O amor causou a morte de Simão. Este nobre sentimento que consome em alegria traz consigo a tristeza, e, do mesmo modo, gera a vida, mas faz-se inevitável: a minha morte!


Mudança de foco narrativo-Amor de perdição.

2 comentários:

JUUUUU....só vim deixar um oi...hehe

ok né eowieowie

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